A justiça, em seu sentido mais profundo, não é meramente um conjunto de normas e regras, mas um reflexo da verdade sobre o homem e sua relação com Deus. No Evangelho, encontramos dois personagens que ilustram de maneira contrastante a relação entre justiça e a consciência da própria miséria: Pôncio Pilatos, que no pretório hesita e se lava as mãos, e o bom ladrão, que na cruz reconhece sua indignidade e se entrega à misericórdia de Cristo.
A atitude de cada um revela um princípio espiritual essencial: quem não reconhece a própria miséria, não é capaz de fazer verdadeira justiça. Esse princípio, tão negligenciado nos dias atuais, nos convida a uma profunda reflexão sobre a justiça, a conversão e o modo como lidamos com a verdade.
Pilatos e a justiça da conveniência
Pôncio Pilatos ocupa uma posição de poder e prestígio. Como governador romano da Judeia, ele representa a autoridade civil e tem a responsabilidade de julgar as causas que lhe são apresentadas. Quando Cristo é conduzido até ele, Pilatos se vê diante da Verdade encarnada (cf. Jo 18,38). Mas, em vez de abraçá-la, recua diante dela.
Seu erro fundamental não está apenas na sentença injusta, mas na sua recusa em assumir sua própria limitação moral. Pilatos não reconhece sua fraqueza, não admite que tem medo de perder sua posição e que sua decisão não é movida pela justiça, mas pela conveniência. Ele se ilude ao pensar que pode ser neutro diante da verdade, lavando as mãos e tentando delegar a responsabilidade ao povo. Contudo, como diz Santo Agostinho:
“O medo de perder o poder humano faz com que muitos percam o poder da verdade.” (Santo Agostinho, Sermões, 22,2)
A justiça de Pilatos não é verdadeira porque não parte do reconhecimento de sua miséria. Sua decisão não é um ato reto de julgamento, mas um gesto de covardia, uma fuga da própria responsabilidade.
O bom ladrão e a justiça da humildade
Diferente de Pilatos, o bom ladrão, crucificado ao lado de Cristo, reconhece sua miséria sem desculpas ou tentativas de autopreservação. Ele não tenta justificar seus erros, nem busca transferir sua culpa para outros. Diante da morte iminente, ele faz um ato de justiça verdadeira: reconhece que sua punição é justa e que Cristo, ao contrário dele, é inocente.
Ele diz ao outro ladrão:
“Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós é justo, pois recebemos o que merecemos por nossas ações; mas este nada fez de mal.” (Lc 23,40-41)
Aqui está a chave da verdadeira justiça: não há como ser justo sem primeiro ser humilde. O bom ladrão não busca se desculpar, mas aceita a verdade sobre si mesmo. E, nesse reconhecimento, abre-se para a graça. Sua súplica a Cristo – “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino” (Lc 23,42) – revela uma justiça que não se fundamenta na arrogância ou na autopreservação, mas na confiança na misericórdia divina.
E Cristo responde com uma promessa que transforma aquele momento de dor em um instante de salvação:
“Em verdade, te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lc 23,43)
A justiça do bom ladrão é maior do que a de Pilatos porque nasce do reconhecimento da própria miséria. Pilatos quis salvar-se e perdeu-se; o bom ladrão entregou-se e foi salvo.
A negligência desse princípio em nossos tempos
Vivemos em uma era marcada por uma justiça distorcida, onde o homem, em sua soberba, se julga impecável e incapaz de erro. A cultura contemporânea frequentemente promove uma visão de justiça fundamentada no ressentimento e na autossuficiência, sem espaço para a humildade e a conversão pessoal.
A sociedade moderna muitas vezes se assemelha a Pilatos: busca uma justiça formalista, movida mais pela opinião pública e pelos interesses do momento do que pelo reconhecimento da verdade. Ao mesmo tempo, rejeita a postura do bom ladrão, pois admitir a própria miséria requer um ato de humildade que contraria o espírito de um mundo que exalta o orgulho e a autossuficiência.
O Catecismo da Igreja nos recorda que:
“A justiça consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.” (CIC, 1807)
Mas como podemos dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido, se não reconhecemos a nossa própria fraqueza?
O caminho para a verdadeira justiça
Para praticar a verdadeira justiça, precisamos antes reconhecer nossa necessidade da graça. Isso exige:
- Humildade diante de Deus – Como o bom ladrão, devemos reconhecer que não somos autossuficientes e que precisamos do perdão divino.
- Coragem para enfrentar a verdade – Diferente de Pilatos, devemos abraçar a verdade, mesmo quando isso nos custa algo.
- Justiça acompanhada de misericórdia – Santo Tomás de Aquino ensina que a justiça deve ser sempre temperada pela misericórdia, pois “a misericórdia é a plenitude da justiça” (Suma Teológica, II-II, q.30, a.4).
- Conversão contínua – A justiça verdadeira não se limita a punir o mal, mas busca a transformação do coração. A confissão e a vida sacramental são essenciais para nos mantermos no caminho da retidão.
A justiça não pode ser reduzida a um mero sistema legal ou a uma aparência de retidão. Como vemos na diferença entre Pilatos e o bom ladrão, a verdadeira justiça exige humildade e reconhecimento da própria miséria.
Quem não admite sua fraqueza se torna cego diante da verdade e acaba por cometer injustiças, como fez Pilatos. Mas aquele que, como o bom ladrão, reconhece sua culpa e se abre à graça, encontra a verdadeira justiça e a verdadeira salvação.
Que possamos aprender com esses exemplos e buscar, na luz de Cristo, a justiça que não apenas julga, mas que também redime.